Constantino I e os votos de vinte anos: o nummus VOT XX de Ticinum, RIC VII 167
Autores: Thaisa Aline Alves Higor Vinicius Nogueira Jorge
1 Introdução
As moedas romanas não constituíam apenas instrumentos de pagamento. Produzidas sob autoridade estatal e distribuídas por extensas regiões, elas também veiculavam retratos, títulos, símbolos e fórmulas que apresentavam o imperador à população. Essa função assumiu especial importância durante o governo de Constantino I, período em que a unidade política do Império ainda era disputada e a linguagem do poder passava por transformações profundas. O nummus cunhado em Ticinum entre 322 e 325 d.C., catalogado como RIC VII Ticinum 167, pertence a esse contexto. No anverso, encontra-se a cabeça laureada de Constantino I voltada à direita, acompanhada pela legenda CONSTAN-TINVS AVG. No reverso, a inscrição D N CONSTANTINI MAX AVG circunda uma coroa de louros que contém VOT XX em duas linhas, com um crescente abaixo. As bases especializadas confirmam a atribuição, o intervalo cronológico e a correspondência com OCRE ric.7.tic.167 e Numista N#73234 (BRUUN, 1966; NUMISTA, 2026). Embora frequentemente denominada follis no comércio e em catálogos, a designação nummus é tecnicamente mais prudente. A terminologia das pequenas moedas de bronze do século IV não é inteiramente uniforme na bibliografia moderna. Nesse tipo, os exemplares conhecidos apresentam, em regra, módulo aproximado de 18 a 19 milímetros e peso em torno de três gramas, admitidas as variações decorrentes da produção antiga, da circulação e da conservação.
2 O anverso e a representação da autoridade imperial
A legenda CONSTAN-TINVS AVG corresponde a Constantinus Augustus, isto é, “Constantino Augusto”. A separação convencional CONSTAN-TINVS reproduz a disposição da inscrição nos cunhos e não constitui propriamente uma divisão gramatical do nome. O título Augustus identificava Constantino como detentor da mais elevada dignidade imperial. A cabeça laureada, voltada à direita, emprega uma linguagem visual profundamente enraizada na tradição romana. A coroa de louros evocava vitória, honra e reconhecimento público. Ao mesmo tempo, o retrato individualizava a autoridade responsável pela emissão e garantia simbolicamente o valor da moeda. A simplicidade do retrato não deve ser confundida com neutralidade. A imagem imperial repetida em grande quantidade familiarizava o usuário com a fisionomia oficial e os títulos do soberano. Em um mundo sem meios de comunicação de massa, a moeda fazia o imperador circular por lugares que ele jamais visitaria pessoalmente.
3 A fórmula D N CONSTANTINI MAX AVG
A legenda do reverso, D N CONSTANTINI MAX AVG, pode ser desenvolvida como Domini Nostri Constantini Maximi Augusti. Em tradução contextual, significa “do nosso senhor Constantino, Máximo Augusto”. A expressão Dominus Noster, abreviada como D N, tornou-se característica da linguagem política do Império Romano tardio. Ela expressava uma concepção mais solene e hierarquizada do poder imperial. O governante já não se apresentava apenas como primeiro cidadão ou magistrado superior. Era colocado em posição elevada, revestido de majestade e investido de uma autoridade que se pretendia universal. O título Maximus Augustus reforçava essa superioridade. Nesse contexto, maximus deve ser compreendido como parte da titulação imperial, com o sentido de “máximo” ou “supremo”, e não simplesmente como tradução do epíteto historiográfico moderno “o Grande”.
4 VOT XX e os votos pelos vinte anos de governo
O elemento central do reverso é a inscrição VOT XX. A abreviatura VOT remete aos vota, os votos públicos formulados em favor da saúde, da segurança, das vitórias e da continuidade do governo imperial. O numeral XX relaciona a emissão aos vinte anos de poder de Constantino, conhecidos como vicennalia. Esses votos integravam uma tradição religiosa e política muito anterior a Constantino. Em determinadas ocasiões, o imperador, o Senado, o Exército ou as comunidades do Império comprometiam-se ritualmente perante as divindades em favor da preservação do governante e do Estado. A longevidade do soberano era apresentada como condição de estabilidade para toda a ordem romana. A fórmula VOT XX não deve ser interpretada mecanicamente como declaração de que vinte anos completos já haviam transcorrido quando cada moeda foi cunhada. Constantino foi aclamado em York em 25 de julho de 306. Seu vigésimo ano de poder começou em 325 e alcançou sua conclusão em 326. Como a emissão de Ticinum é situada desde 322, seu conteúdo possuía caráter antecipatório. A moeda anunciava e desejava a continuidade do governo até as vicennalia, contribuindo para preparar publicamente a celebração do jubileu imperial. Estudos sobre a cronologia das comemorações constantinianas demonstram que os votos e as celebrações podiam ser realizados antecipadamente e prolongar-se por mais de um momento cerimonial (NIXON, 1980). A coroa de louros que envolve VOT XX reforça a mensagem. Ela cria uma moldura honorífica para os votos e associa a duração do reinado à vitória, à proteção e à legitimidade. O reverso não celebra apenas o tempo decorrido. Projeta para o futuro a permanência do imperador e transforma essa expectativa em promessa pública de estabilidade.
5 O crescente e as marcas da ceca
A presença de um crescente abaixo de XX é um dos elementos diagnósticos da emissão RIC VII Ticinum 167. Sua importância para a classificação é objetiva, pois permite distinguir essa série de outras emissões votivas de Constantino produzidas na mesma ceca. Não existe, contudo, fundamento suficiente para atribuir automaticamente ao crescente uma mensagem religiosa autônoma ou uma referência específica ao culto lunar. Nas moedas tardo-romanas, símbolos secundários podiam desempenhar funções de controle interno, diferenciação de séries, identificação de emissões ou organização da produção. Sem documentação complementar ou associação consistente com outros elementos, o significado particular do crescente permanece não confirmado. No exergo aparecem as marcas PT, ST, TT ou QT. A última letra, T, identifica Ticinum. A primeira letra indica a oficina responsável pela produção: P para prima, S para secunda, T para tertia e Q para quarta. Assim, PT corresponde à primeira oficina de Ticinum; ST, à segunda; TT, à terceira; e QT, à quarta. A existência dessas variantes demonstra a organização da ceca em diferentes unidades produtivas.
6 Ticinum e o sistema monetário constantiniano
Ticinum corresponde à atual cidade de Pavia, no norte da Itália. Sua posição geográfica conferia-lhe importância estratégica na circulação de pessoas, tropas, suprimentos e numerário entre a Itália, as regiões alpinas e as províncias do centro europeu. A classificação RIC VII 167 situa a emissão entre 322 e 325 d.C., nos anos finais da atividade constantiniana dessa casa da moeda. A tipologia também aparece em coleções institucionais com a referência complementar LRBC 479, confirmando sua inserção nas séries de bronze da dinastia constantiniana. A marca da oficina era relevante para o controle administrativo. Caso surgissem problemas de peso, liga, estilo ou produtividade, a administração poderia identificar a unidade responsável. Essas letras não eram, portanto, simples ornamentos. Integravam o sistema de organização de uma produção monetária complexa e territorialmente descentralizada.
7 Uma moeda entre a divisão e a reunificação do Império
O intervalo atribuído à emissão atravessa uma das fases mais decisivas do reinado de Constantino. Quando a série começou a ser produzida, o Império permanecia dividido entre Constantino, no Ocidente, e Licínio, no Oriente. A convivência entre os dois Augustos era marcada por rivalidade e desconfiança. Em 324, a disputa transformou-se em guerra aberta. Constantino derrotou Licínio em Adrianópolis e, posteriormente, em Crisópolis, tornando-se o único governante do Império Romano. O período abrangido pela datação do RIC VII 167 começa, portanto, durante a instável associação entre dois imperadores e termina após a reunificação do poder nas mãos de Constantino (CAMERON, 2005). Não é possível determinar, apenas pela tipologia geral, se um exemplar específico foi produzido antes ou depois das vitórias de 324. A amplitude cronológica estabelecida pelo catálogo não autoriza essa precisão. Ainda assim, a mensagem de continuidade presente em VOT XX adequava-se aos dois momentos. Antes da guerra, afirmava a expectativa de permanência de Constantino. Depois da vitória, legitimava a longevidade daquele que passara a governar sozinho. Nesse sentido, o reverso votivo era particularmente eficaz. Em vez de mencionar diretamente um adversário ou uma batalha, apresentava o governo de Constantino como duradouro, protegido e necessário à estabilidade coletiva. A moeda convertia a permanência do soberano em promessa de ordem para o Império.
8 Tradição romana e transformação religiosa
A emissão também deve ser analisada no contexto da aproximação de Constantino com o cristianismo. Em 325, o imperador convocou o Concílio de Niceia, acontecimento que simbolizou a nova posição ocupada pelo cristianismo dentro da estrutura imperial. A documentação do concílio é incompleta, mas sua realização evidencia a crescente participação de Constantino nas controvérsias e na organização da Igreja (GWYNN, 2021). Apesar disso, o nummus VOT XX não apresenta um símbolo inequivocamente cristão. Sua linguagem pertence à tradição dos votos públicos romanos: coroa de louros, titulatura imperial e expectativa de longevidade do governante. Essa ausência não permite concluir que a emissão fosse contrária ao cristianismo. Ela demonstra que a comunicação monetária constantiniana continuava recorrendo a fórmulas compreensíveis por uma população religiosa e culturalmente diversificada. Os primeiros símbolos cristãos nas moedas de Constantino surgiram de maneira gradual e, em muitos casos, discreta. Estudos especializados registram sinais cruciformes e cristogramas em determinadas emissões, mas também alertam que alguns desses elementos poderiam funcionar como marcas de controle ou iniciativas locais, sem necessariamente representar uma declaração religiosa oficial (ABDY, 2012). A emissão VOT XX de Ticinum constitui um exemplo significativo dessa transição. Constantino favorecia o cristianismo, mas ainda governava por meio de uma linguagem imperial formada ao longo de séculos. Os votos pela duração de seu reinado podiam ser compreendidos tanto dentro da tradição cívico-religiosa romana quanto como manifestação mais ampla de uma ordem providencial associada ao soberano.
9 Circulação e comunicação política
As séries votivas de bronze foram produzidas em grande quantidade e participaram da circulação cotidiana. Estudos arqueológicos demonstram que tipos VOT constantinianos alcançaram diferentes regiões do Império e contribuíram para substituir gradualmente moedas mais antigas que ainda permaneciam em uso durante as primeiras décadas do século IV. O alcance da mensagem não dependia de uma leitura completa das legendas por todos os usuários. A imagem do imperador, a coroa e o numeral romano podiam ser reconhecidos visualmente. Para os agentes administrativos, militares e grupos mais familiarizados com as fórmulas oficiais, as inscrições ofereciam uma mensagem mais precisa: tratava-se dos votos pelos vinte anos de Constantino, apresentado como senhor e Máximo Augusto. Desse modo, a moeda reunia funções econômicas e políticas. Seu valor permitia que participasse de pagamentos e trocas. Sua iconografia fazia circular uma determinada representação do poder. Cada transação repetia, ainda que silenciosamente, a expectativa de continuidade do reinado.
10 Considerações finais
O nummus de Constantino I classificado como RIC VII Ticinum 167 constitui um documento expressivo do processo de consolidação do poder constantiniano. Seu anverso apresenta o imperador por meio de uma imagem tradicional de autoridade e vitória. O reverso projeta a continuidade de seu governo até os vinte anos de reinado, inserindo essa expectativa dentro da antiga prática romana dos votos públicos. A moeda foi produzida em um período que compreendeu a fase final da coexistência com Licínio, a guerra de 324, a reunificação do Império e as celebrações relacionadas às vicennalia. Ao mesmo tempo, pertence a uma época em que o cristianismo adquiria crescente relevância política, embora a linguagem monetária continuasse a empregar símbolos e fórmulas tradicionais. O crescente abaixo de VOT XX possui importância segura para a identificação da emissão, mas seu significado simbólico específico não pode ser estabelecido com a mesma certeza. A prudência recomenda tratá-lo prioritariamente como elemento distintivo da série, sem lhe atribuir uma interpretação religiosa não demonstrada. Mais do que comemorar um aniversário, essa tipologia afirmava uma expectativa política: Constantino deveria permanecer. A duração de seu governo era apresentada como promessa de estabilidade para o próprio Império. Em uma pequena peça de bronze, encontravam-se condensados o ritual dos votos, a autoridade do soberano, a organização da ceca e um dos momentos mais decisivos da Antiguidade Tardia. Nota de rigor numismático A classificação como nummus de Constantino I, cunhado em Ticinum entre 322 e 325 d.C., RIC VII Ticinum 167, apresenta grau de confiança muito alto. A relação de VOT XX com as vicennalia possui confiança muito alta. A interpretação da emissão como instrumento de afirmação da estabilidade e da continuidade imperial possui confiança alta, por decorrer do contexto histórico e da função das séries votivas. O significado religioso específico do crescente é não confirmado. A atribuição de oficina de um exemplar individual depende da leitura integral da marca de exergo. Pesquisa bibliográfica e conferência catalográfica realizadas em 24 de setembro de 2026.
Referências
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