O que é um follis?
Um nome usado para moedas diferentes
O termo follis exige cuidado porque é utilizado pelos numismatas em contextos distintos. Em muitos catálogos e coleções, follis designa a grande moeda de bronze ou cobre prateado introduzida na reforma de Diocleciano no final do século III. Em estudos mais recentes, porém, é comum encontrar a denominação nummus, porque o nome antigo exato da peça tetrárquica não é inteiramente seguro.
Séculos depois, no Império Bizantino, follis passou a ser empregado de maneira muito mais clara para a grande moeda de cobre equivalente a quarenta nummi, frequentemente marcada com a letra grega M. Confundir esses dois contextos leva a erros cronológicos e de identificação.
A reforma monetária de Diocleciano
No final do século III, o sistema monetário romano havia sofrido profundas alterações. Décadas de desvalorização do antoniniano e de mudanças na relação entre ouro, prata e bronze exigiam reorganização. A reforma de Diocleciano, iniciada por volta de 294 d.C., introduziu novos padrões e uma grande peça de liga de cobre com prateamento superficial, tradicionalmente chamada de follis pela literatura numismática (SUTHERLAND, 1967; HARL, 1996).
Quando nova, a moeda podia apresentar aspecto muito diferente daquele observado atualmente. O fino enriquecimento ou revestimento de prata podia produzir superfície clara. Com a circulação, corrosão e passagem de mais de dezessete séculos, grande parte dessa camada desapareceu em muitos exemplares. Por isso, peças atualmente marrons, verdes ou escuras não devem ser classificadas apenas pela cor.
Tamanho e redução progressiva
As primeiras emissões da reforma possuem módulo relativamente grande e peso elevado quando comparadas a muitos bronzes que circulariam nas décadas seguintes. O sistema, no entanto, não permaneceu estático. O nummus sofreu reduções sucessivas de peso e diâmetro ao longo do século IV.
Essa evolução explica por que a palavra follis não pode ser associada a um único tamanho. Uma moeda de período tetrárquico pode ser significativamente maior do que uma emissão posterior vinculada à mesma tradição monetária. A identificação cronológica depende de conjunto de características, não de medida isolada.
O retrato tetrárquico
As moedas da Tetrarquia são particularmente interessantes porque muitos retratos foram deliberadamente estilizados. Em vez de enfatizar fisionomias individuais, várias emissões apresentam imperadores com aparência semelhante, cabeça robusta e linguagem visual associada à colegialidade do governo.
Para o iniciante, isso significa que o rosto não basta para distinguir Diocleciano, Maximiano, Galério ou Constâncio Cloro. A legenda é essencial. A casa monetária, o reverso e as marcas de oficina também precisam ser analisados.
GENIO POPVLI ROMANI
Um dos reversos mais conhecidos das grandes peças tetrárquicas apresenta o Genius do povo romano, normalmente acompanhado da legenda GENIO POPVLI ROMANI. A figura pode aparecer em pé, com atributos como pátera e cornucópia. Existem numerosas variantes por oficina e autoridade.
A aparente repetição é justamente uma oportunidade de estudo. Comparar marcas de exergo, letras nos campos e estilos de retrato ajuda a compreender como uma mensagem imperial padronizada era produzida por oficinas diferentes em uma área geográfica extensa.
O follis no período bizantino
Em 498 d.C., sob Anastácio I, ocorreu reforma importante da moeda de cobre do Império Romano do Oriente. Nesse contexto, o follis bizantino corresponde a quarenta nummi e geralmente apresenta uma grande letra M no reverso. Frações também utilizam marcas de valor, como K para vinte nummi, I para dez e E para cinco.
Esse sistema de marcas explícitas facilita a compreensão do valor nominal e representa uma etapa diferente da história monetária. Embora exista continuidade institucional entre o Império Romano tardio e o que chamamos de Império Bizantino, o colecionador deve distinguir claramente o grande nummus tetrárquico tradicionalmente chamado de follis do follis bizantino de quarenta nummi (GRIERSON, 1982).
Como identificar corretamente
Antes de chamar qualquer bronze tardio de follis, observe a data provável e o contexto. Se a peça pertence à Tetrarquia ou ao início do século IV, verifique se a referência consultada utiliza nummus ou follis e registre, se necessário, a equivalência terminológica. Se pertence ao período bizantino, procure a marca de valor e a estrutura típica da emissão.
Registre peso, diâmetro e eixo. Transcreva a legenda do anverso e reverso. Identifique a casa monetária e a oficina. Compare o exemplar com catálogo específico do período. Não confie apenas em títulos de anúncios, porque o termo follis é frequentemente empregado de forma ampla no comércio numismático.
Prateamento e conservação
Vestígios de prateamento original podem ser extremamente delicados. Limpeza agressiva pode remover justamente uma das características mais importantes da moeda. Quando a superfície apresenta áreas claras aderidas ao metal e coerentes com o processo antigo, qualquer intervenção deve ser evitada até que se compreenda exatamente o que está sendo observado.
Também não se deve interpretar toda área prateada como prova de autenticidade. Revestimentos modernos podem ser produzidos. A análise deve combinar superfície, estilo, peso, diâmetro, cunhagem, bordas e comparação com exemplares confiáveis.
Por que o follis é excelente para estudo
As moedas tetrárquicas permitem estudar uma reforma monetária, a ideologia da Tetrarquia, a padronização de retratos e uma ampla rede de casas monetárias. Já os folles bizantinos ensinam a reconhecer marcas explícitas de valor e a evolução da moeda de cobre no Mediterrâneo oriental.
Uma coleção comparativa com exemplares dos dois contextos é especialmente didática. Ela mostra que o vocabulário numismático pode mudar e que a correta classificação depende de cronologia e bibliografia.
Conclusão
Follis não é uma palavra que deva ser aplicada mecanicamente a qualquer moeda romana de bronze. Na numismática tardo-romana, o termo costuma designar a grande peça introduzida na reforma de Diocleciano, embora nummus seja frequentemente preferido em estudos atuais. Na numismática bizantina, follis designa a peça de quarenta nummi, normalmente marcada com M.
Compreender essa distinção evita erros e oferece uma lição importante: nomes de moedas também possuem história. O bom colecionador registra não apenas o objeto, mas também o grau de certeza e a terminologia adotada pela literatura especializada.
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Referências
BURNETT, Andrew. Coinage in the Roman World. London: Seaby, 1987.
GRIERSON, Philip. Byzantine Coins. Berkeley: University of California Press, 1982.
HARL, Kenneth W. Coinage in the Roman economy, 300 B.C. to A.D. 700. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 1996.
JORGE, Higor Vinicius Nogueira. Manual do colecionador de moedas: numismática grega, romana e brasileira: identificação, autenticidade, conservação e formação de acervos. 1. ed. [S. l.]: CodexNauta, 2026. ISBN 978-65-02-26375-4.
SUTHERLAND, C. H. V. The Roman Imperial Coinage. v. 6: From Diocletian's Reform, A.D. 294, to the Death of Maximinus, A.D. 313. London: Spink & Son, 1967.