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Imperadores

Constantino I: o imperador que reorganizou o Império Romano

17 de agosto de 2026 · 12 min de leitura

Introdução: por que Constantino exige um estudo próprio

Poucos imperadores alteraram de maneira tão duradoura a história romana quanto Constantino I. Seu governo atravessou o colapso da Tetrarquia, guerras civis, redefinição das relações entre Estado e cristianismo, reforma monetária, criação de nova capital e construção de uma dinastia. A moeda acompanha cada uma dessas transformações e, em muitos aspectos, permite observá-las com precisão que as narrativas literárias não oferecem (BARNES, 2011; LENSKI, 2012).

Para o colecionador, Constantino é especialmente importante porque suas emissões são numerosas e diversificadas. Existe material suficiente para formar uma coleção didática relativamente acessível, mas também variantes raríssimas, medalhões, múltiplos de ouro e tipos de enorme relevância histórica.

1. O mundo que Constantino recebeu

Diocleciano havia criado a Tetrarquia como sistema de governo compartilhado entre dois Augustos e dois Césares. A proposta buscava resolver problemas de sucessão, presença militar e administração de um território muito extenso. Quando Diocleciano e Maximiano abdicaram em 305 d.C., a engrenagem sucessória mostrou fragilidades.

Constâncio Cloro, pai de Constantino, tornou-se Augusto no Ocidente. Após sua morte em York, em 306, as tropas proclamaram Constantino. A partir daí, títulos e reconhecimentos foram negociados em ambiente no qual várias figuras reivindicavam legitimidade.

As primeiras moedas de Constantino precisam ser lidas dentro dessa estrutura. Títulos, retratos e reversos não são apenas escolhas artísticas. Eles refletem o lugar que o governante tentava ocupar numa ordem política ainda dominada pela linguagem tetrárquica.

2. A ruptura gradual com a Tetrarquia

A trajetória de Constantino não foi uma marcha inevitável rumo ao poder único. Houve alianças, guerras e rearranjos. Maxêncio controlava Roma e parte importante do Ocidente. Licínio tornou-se figura central no Oriente. Maximiano ainda tentou interferir na política depois de sua abdicação.

Ao longo desses conflitos, Constantino construiu nova identidade imperial. Retratos monetários passaram a distinguir-se do padrão de semelhança colegiada que caracterizava muitas emissões tetrárquicas. A individualização do imperador cresceu ao mesmo tempo em que sua posição política se fortalecia.

3. A Ponte Mílvia e 312 d.C.

A vitória sobre Maxêncio na Ponte Mílvia, em 312, é um dos eventos mais conhecidos do reinado. Fontes cristãs associam a campanha a visão, sonho ou sinal divino relacionado ao Deus cristão. As versões não são idênticas e foram registradas em contextos diferentes, razão pela qual o episódio deve ser analisado criticamente.

Numismática oferece um importante contraponto. Depois de 312, moedas de Constantino continuaram a utilizar, por algum tempo, linguagem relacionada a Sol Invictus. Isso não invalida o crescente favorecimento ao cristianismo. Mostra, porém, que a transformação religiosa ocorreu em processo e que a propaganda imperial podia dirigir-se a públicos diversos.

4. O chamado Edito de Milão

Em 313, Constantino e Licínio estabeleceram entendimento que garantiu liberdade de culto e restituição de propriedades aos cristãos. A tradição consagrou a expressão Edito de Milão. Tecnicamente, o fenômeno é mais complexo do que a ideia de um único decreto inaugural da tolerância, pois Galério já havia promulgado medida tolerante em 311.

O ponto central é que Constantino passou a oferecer ao cristianismo posição e apoio inéditos no governo imperial. Doações, construção de igrejas, privilégios e participação em disputas eclesiásticas modificaram a relação entre autoridade política e comunidade cristã.

5. Constantino e Licínio

A aliança entre Constantino e Licínio tornou-se progressivamente instável. Conflitos ocorreram antes do confronto final. Em 324, Constantino derrotou Licínio e tornou-se único governante do Império.

A numismática ajuda a datar as fases dessa relação. Oficinas em territórios controlados por diferentes imperadores emitiram moedas em nome de ambos em determinados períodos. Depois da vitória de 324, a linguagem dinástica de Constantino ganhou espaço ainda maior.

6. O Concílio de Niceia

Em 325 d.C., Constantino convocou o Concílio de Niceia para enfrentar controvérsias que ameaçavam a unidade cristã. O episódio demonstra que sua política religiosa já não se limitava a tolerar uma comunidade antes perseguida. O imperador passou a atuar como poder decisivo na criação de condições institucionais para a resolução de conflitos eclesiásticos.

É importante evitar leitura anacrônica. Constantino não deve ser simplesmente descrito com categorias modernas de relação entre Igreja e Estado. O mundo romano concebia religião, ordem pública e legitimidade política de maneira muito diferente.

7. A fundação de Constantinopla

Depois de tornar-se imperador único, Constantino desenvolveu Bizâncio e a inaugurou solenemente como Constantinopla em 330. Sua posição no Bósforo oferecia vantagens militares, comerciais e administrativas. A cidade se tornaria centro do Império Romano do Oriente por mais de um milênio.

A numismática registra essa transformação com força simbólica. Séries comemorativas emitidas na década de 330 celebram CONSTANTINOPOLIS e VRBS ROMA. A primeira costuma apresentar personificação de Constantinopla e, no reverso, Vitória sobre proa. A segunda apresenta Roma e, no reverso, a loba com Rômulo e Remo.

Essas moedas podem ser estudadas como programa político de continuidade e renovação. A nova capital não apagava Roma. Era apresentada ao lado dela dentro de uma nova arquitetura imperial.

8. O solidus: uma das reformas monetárias mais duradouras

Constantino consolidou o solidus de ouro no padrão de setenta e duas peças por libra romana. A nova moeda, com aproximadamente 4,5 gramas no padrão teórico, tornou-se instrumento de grande estabilidade e sobreviveu como referência monetária por séculos no mundo romano oriental.

O sucesso do solidus contrasta com a complexidade da moeda de bronze, que sofreu reduções de peso e módulo. Essa coexistência revela uma economia monetária segmentada. O ouro podia funcionar com estabilidade muito superior à das pequenas denominações utilizadas em transações cotidianas (SOUTHERN, 2015).

9. Follis ou nummus no período constantiniano

Colecionadores frequentemente chamam os bronzes de Constantino de follis. O termo é tradicional e aparece amplamente no mercado. Porém, como discutido no conteúdo específico sobre o follis, a denominação antiga dessas peças é problemática. Nummus é termo frequentemente utilizado pela bibliografia moderna.

O importante é não imaginar uma única moeda constante. Os bronzes reduziram-se ao longo do período. A datação depende de diâmetro, peso, tipo, oficina e emissão.

10. As principais fases da moeda de Constantino

Uma forma didática de estudar a numismática constantiniana é dividir o reinado em fases.

Na primeira, entre 306 e aproximadamente 312, observa-se forte herança tetrárquica e necessidade de negociar legitimidade com outros governantes. Em uma segunda fase, depois da derrota de Maxêncio, crescem tipos que projetam autoridade própria, incluindo ampla presença solar. Na terceira, entre as guerras com Licínio e a vitória de 324, a moeda acompanha a competição entre blocos políticos. Depois de 324, a linguagem dinástica e a construção de nova ordem imperial tornam-se ainda mais evidentes.

Essa divisão é apenas instrumento de estudo. Emissões concretas precisam ser datadas de forma mais precisa por catálogo.

11. SOLI INVICTO COMITI

O tipo SOLI INVICTO COMITI é um dos mais conhecidos entre colecionadores de Constantino. Sol aparece em pé, normalmente com coroa radiada, mão elevada e globo. A legenda pode ser entendida como referência ao Sol Invicto como companheiro do imperador.

Essas moedas são historicamente importantes porque demonstram a permanência de linguagem solar durante fase em que Constantino já estava se aproximando do cristianismo. Elas impedem uma cronologia religiosa excessivamente simplificada.

12. Campgates e PROVIDENTIAE

Reversos com estruturas semelhantes a portões fortificados, tradicionalmente chamados campgates, são comuns no período. A legenda PROVIDENTIAE AVGG ou PROVIDENTIAE CAESS associa a imagem à providência dos Augustos ou Césares.

A interpretação arquitetônica exata de certos tipos pode ser discutida, mas, para catalogação, detalhes como número de fileiras, torres, símbolo acima da estrutura e marca de exergo são relevantes.

13. GLORIA EXERCITVS

O tipo GLORIA EXERCITVS apresenta soldados e estandartes e é uma das séries mais conhecidas da década de 330. Existem versões com dois estandartes e versões posteriores com um estandarte, relacionadas a mudanças de módulo e cronologia.

O tipo valoriza a ligação entre dinastia e exército. Para o colecionador, oferece excelente exercício de classificação por oficina, officina e variante.

14. Votos e aniversários de governo

Moedas com VOT registram votos públicos relacionados a períodos de governo e expectativas de continuidade. Numerais inseridos em coroas permitem estudar aniversários imperiais e propaganda de estabilidade.

Essas emissões são muito úteis para compreender como o tempo político era transformado em mensagem monetária. O imperador celebra anos completados e projeta anos futuros.

15. A dinastia constantiniana

Constantino utilizou a moeda para apresentar filhos e membros da família imperial. Crispus, Constantino II, Constâncio II e Constante aparecem em numerosas emissões. Fausta e Helena também possuem séries próprias.

A numismática dinástica permite estudar títulos como Caesar e Augustus, mudanças na sucessão e alterações após episódios políticos. A morte de Crispus, por exemplo, interrompe sua trajetória monetária e transforma o conjunto de possíveis herdeiros.

16. Retratos e diadema

O retrato de Constantino muda ao longo do tempo. A adoção do diadema é particularmente significativa. O elemento aproxima a representação imperial de linguagem monárquica helenística e tardo-antiga, diferenciando-a de modelos anteriores.

Variações de busto podem envolver drapeado, couraça, capacete, lança e escudo. Em determinados tipos, um busto raro é muito mais importante para a classificação do que o reverso aparentemente comum.

17. Casas monetárias

A moeda de Constantino foi produzida em ampla rede de oficinas. Londres, Trier, Lyon, Arles, Roma, Aquileia, Siscia, Thessalonica, Heraclea, Constantinopla, Nicomedia, Cyzicus, Antioquia e Alexandria aparecem em diferentes fases, entre outras.

As marcas de exergo e de campo permitem identificar origem. O estudo das oficinas revela circulação de estilos, reorganizações administrativas e mudanças de controle político.

Uma coleção especializada pode reunir o mesmo tipo produzido em casas monetárias distintas. As diferenças de retrato e gravação tornam esse recorte visualmente interessante e historicamente informativo.

18. O cristianismo nas moedas

Símbolos cristãos aparecem na moeda constantiniana, mas são menos simples de interpretar do que frequentemente se imagina. O crismon, formado pela combinação das letras gregas chi e rho, pode aparecer em determinados contextos. O labarum e outros elementos associados ao programa cristão também ganham relevância.

Entretanto, não é correto afirmar que Constantino substituiu imediatamente toda iconografia anterior por cruzes. A transição visual foi gradual e acompanhou necessidades políticas e religiosas complexas.

19. Emissões após a morte de Constantino

Constantino morreu em 337 d.C. Depois de sua morte, foram emitidas moedas de consagração. Um dos tipos mais impressionantes representa o imperador em quadriga ascendendo, com mão divina estendida do alto. O conjunto mostra como a memória de Constantino foi incorporada à linguagem política de seus sucessores.

Essas emissões também são úteis para discutir continuidade entre formas tradicionais de consagração imperial e nova simbologia cristã.

20. Como identificar uma moeda constantiniana

O procedimento deve começar pela legenda do anverso. Identifique se a moeda é de Constantino I ou de outro membro da dinastia. Em seguida, classifique o busto, transcreva o reverso, registre símbolos de campo e leia cuidadosamente o exergo.

Depois compare com o volume apropriado do Roman Imperial Coinage. Emissões anteriores a 313 podem exigir consulta ao RIC VI. Grande parte do período posterior é abrangida pelo RIC VII. Bases digitais como OCRE auxiliam na localização de tipos e exemplares.

21. O valor das marcas de oficina

Letras aparentemente insignificantes podem indicar officina, emissão e cronologia. Ignorá-las reduz uma atribuição precisa a descrição genérica. Em séries muito comuns, justamente a combinação de marca, busto e legenda pode revelar variante menos usual.

O colecionador deve fotografar o exergo com foco e iluminação adequados. Muitas identificações equivocadas decorrem de leitura apressada dessa área.

22. Autenticidade e peças constantinianas

A grande disponibilidade de bronzes constantinianos não elimina falsificações. Também existem reproduções modernas, cópias turísticas e peças artificialmente patinadas. O preço baixo de uma moeda não garante que ninguém a falsificaria, porque métodos de produção em série reduzem custos.

Autenticidade deve ser avaliada por estilo, processo de fabricação, superfície, borda, medidas, coerência tipológica e procedência. Em exemplares raros ou caros, a diligência deve ser proporcional ao risco.

23. Como montar uma coleção especializada

Existem múltiplos caminhos. Um conjunto pode reunir uma peça de cada oficina. Outro pode estudar apenas GLORIA EXERCITVS. Também é possível colecionar moedas da família de Constantino, acompanhar a evolução de SOLI INVICTO COMITI até tipos posteriores, reunir séries comemorativas de Roma e Constantinopla ou estudar apenas um período de cinco anos.

A especialização melhora a capacidade de perceber variantes que passariam despercebidas em coleção genérica.

24. Constantino como fonte para história, não apenas como personagem

O maior ganho de estudar suas moedas está em perceber que elas constituem documentos seriados. Uma moeda isolada transmite informação. Centenas de emissões organizadas por oficina e cronologia revelam mudanças de política, prioridades militares, títulos e linguagem religiosa.

Esse é um dos pontos centrais da numismática acadêmica. O objeto não serve apenas para ilustrar narrativa já conhecida. Pode produzir evidência própria e até obrigar o historiador a revisar interpretações (HOWGEGO, 1995).

Conclusão

Constantino reorganizou o Império porque atuou simultaneamente sobre sucessão, território, religião, moeda, dinastia e centros de poder. O solidus forneceu padrão monetário de extraordinária longevidade. Constantinopla redefiniu a geografia imperial. O favorecimento ao cristianismo transformou a história religiosa do Mediterrâneo. As guerras civis encerraram a experiência tetrárquica e produziram nova unidade dinástica.

Nas moedas, nada disso aparece como abstração. Está presente no retrato, no diadema, no Sol, nos soldados, nos estandartes, nas cidades personificadas, nos votos, no ouro e nas marcas de oficina. Uma coleção constantiniana bem documentada pode funcionar como verdadeiro arquivo histórico do século IV.

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Referências

BARNES, Timothy D. Constantine: dynasty, religion and power in the later Roman Empire. Chichester: Wiley-Blackwell, 2011.

BRUUN, Patrick M. The Roman Imperial Coinage. v. 7: Constantine and Licinius, A.D. 313-337. London: Spink & Son, 1966.

HOWGEGO, Christopher. Ancient history from coins. London: Routledge, 1995.

JORGE, Higor Vinicius Nogueira. Manual do colecionador de moedas: numismática grega, romana e brasileira: identificação, autenticidade, conservação e formação de acervos. 1. ed. [S. l.]: CodexNauta, 2026. ISBN 978-65-02-26375-4.

LENSKI, Noel (ed.). The Cambridge Companion to the Age of Constantine. rev. ed. Cambridge: Cambridge University Press, 2012.

SUTHERLAND, C. H. V. The Roman Imperial Coinage. v. 6: From Diocletian's Reform, A.D. 294, to the Death of Maximinus, A.D. 313. London: Spink & Son, 1967.